O sofrimento mental ganha contornos específicos quando observado a partir da história de vida e das condições concretas de cada pessoa. Uma pesquisa qualitativa realizada em um município paulista investigou como usuários de grupos de saúde mental na Atenção Primária à Saúde (APS) compreendem o próprio adoecimento, constroem explicações para o que sentem e traçam caminhos em busca de assistência.
O estudo acompanhou sete participantes por meio da Entrevista McGill de Narrativas de Adoecimento (EMNA). O processo de análise foi fundamentado na Abordagem Histórico-Cultural de Vigotski, organizando as experiências relatadas em núcleos de significação.
Determinantes sociais e marcas do cotidiano
Os relatos evidenciaram uma ligação direta entre o início ou agravamento do sofrimento psíquico e situações cotidianas de vulnerabilidade. Entre os fatores mais recorrentes apontados pelos entrevistados estão vivências de luto e a sobrecarga gerada pelo cuidado de familiares.
Ao resgatar trajetórias pessoais e históricos familiares, os participantes formularam modelos explicativos próprios para o adoecer. Essas interpretações ultrapassaram os limites do modelo biomédico tradicional, incorporando percepções subjetivas e dimensões espirituais para dar sentido às crises e às dificuldades enfrentadas.
Itinerários terapêuticos diversificados
A investigação também mapeou os trajetos percorridos pelos usuários em busca de estabilização e bem-estar. Em vez de dependerem exclusivamente de uma única resposta em saúde, os itinerários terapêuticos revelaram uma combinação de estratégias.
O acompanhamento medicamentoso ofertado nas unidades básicas de saúde integrou-se a práticas complementares de suporte comunitário, como a participação em grupos de escuta, a realização de atividades físicas e o acolhimento encontrado em espaços religiosos. Essa composição prática demonstra que as respostas às demandas de saúde mental envolvem diferentes esferas da vida e das relações sociais.
A pesquisa aponta que a organização do cuidado em saúde mental na atenção primária precisa considerar os determinantes sociais e valorizar a escuta das narrativas individuais. A diversificação das redes de apoio e a superação do estigma social aparecem como elementos centrais para a recuperação e a sustentação do cotidiano dessas pessoas.
Créditos: Conteúdo elaborado com base no estudo “Narrativas de vida e adoecimento psíquico na Atenção Primária à Saúde”. Link original não disponibilizado no material de origem.
Imagem gerada por inteligência artificial.
Narrativas de vida e adoecimento psíquico na Atenção Primária à Saúde
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