O cenário da Terapia Ocupacional no Brasil atravessa um momento paradoxal: enquanto a profissão ganha uma centralidade inédita no mercado de saúde, as profissionais da área enfrentam níveis alarmantes de exaustão e precarização [2-4]. Um estudo recente, desenvolvido por pesquisadoras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), lança luz sobre o que chamam de “Complexo Industrial do Autismo” .
A Mercantilização do Cuidado
O conceito de CIA, adaptado para a realidade brasileira, descreve um sistema que transforma o autismo em uma mercadoria altamente lucrativa [8]. Segundo o ensaio, o capitalismo neoliberal utiliza uma narrativa de “tragédia” ou “problema” para mobilizar o medo das famílias, alimentando uma demanda incessante por intervenções que prometem a “normalização” dos sujeitos [9, 10]. Nesse contexto, o cuidado deixa de ser um direito para se tornar um produto, onde clínicas privadas e investimentos maciços priorizam o retorno financeiro em detrimento de abordagens inclusivas e de qualidade [11].
Formação em Crise: O “Boom” do EaD
Um dos pontos mais críticos levantados pela reportagem é a explosão de cursos de graduação, especialmente na modalidade de *Ensino a Distância (EaD)* [12, 13]. Atualmente, o Brasil oferece mais de 70.000 vagas anuais em cursos remotos de Terapia Ocupacional, muitos com cargas horárias reduzidas e currículos voltados exclusivamente para técnicas comerciais e comportamentais [12, 14].
Essa formação “mercadológica” tem levado à *exploração de estudantes*, que muitas vezes são inseridos precocemente em clínicas para atuar como profissionais formados, sem supervisão adequada e em condições de trabalho irregulares [15].
Precarização e Burnout
No mercado de trabalho, a realidade por trás dos salários aparentemente atrativos é dura. A pesquisa aponta que a maioria das terapeutas ocupacionais atua sob o regime de *MEI (Microempreendedor Individual)*, o que mascara a retirada de direitos trabalhistas sob uma falsa retórica de “autonomia” [16, 17].
As consequências diretas dessa estrutura são:
Jornadas exaustivase metas de produtividade inatingíveis [17].
Adoecimento mental e altos índices de burnout entre as profissionais [18].
Esvaziamento do setor público*, uma vez que o SUS e os CAPS não conseguem competir com as discrepâncias salariais oferecidas pelas clínicas particulares [19, 20].
Um Chamado à Reflexão Ética
O estudo conclui que é urgente repensar a prática profissional para além do lucro [21]. As autoras defendem a retomada de uma clínica pautada na autonomia, na defesa das políticas públicas e no respeito à singularidade dos sujeitos autistas, combatendo a lógica de “controle de corpos” imposta pelo mercado [22-24].
*Créditos da Pesquisa:*
O ensaio original foi elaborado pelas pesquisadoras:
* *Amanda Dourado de Souza Akahosi Fernandes* (UFSCar) [5, 25].
* *Thamy Eduarda Ricci* (UFSCar) [5].
* *Bruna Lidia Taño* (UFES) [6].
* *Maria Fernanda Barboza Cid* (UFSCar) [6].
* *Sabrina Angélica Silvestrini Sanches* (UFSCar) [6].
A pesquisa contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)
