O encerramento das sessões de quimioterapia ou radioterapia costuma ser recebido por familiares e amigos como a linha de chegada no enfrentamento ao câncer de mama. No entanto, para muitas mulheres que vivenciam o processo, a conclusão dos procedimentos hospitalares marca o início de uma fase marcada por incertezas, alterações corporais e o receio contínuo da recidiva da doença.
A atenção às demandas que surgem após o término das terapias principais é apontada por especialistas como uma dimensão ainda pouco visibilizada nas discussões públicas sobre o tema. Em artigo recente, a psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira avalia que as comemorações pelo fim do tratamento muitas vezes contrastam com o sentimento íntimo da paciente.
De acordo com a psicóloga, durante meses a mulher constrói uma rotina centrada em hospitais, consultas frequentes e monitoramento contínuo de equipes de saúde. Quando os ciclos de quimioterapia e radioterapia acabam, essa rede direta se afasta. Ao mesmo tempo, amigos e familiares tendem a retomar suas próprias rotinas, deixando a mulher em um cenário de solidão e apreensão a cada exame de controle ou desconforto físico, frequentemente interpretados como sinais de retorno do tumor.
Impactos no corpo e nas atividades diárias
A reorganização da vida após a fase aguda do tratamento envolve lidar com sequelas físicas e adaptações de longo prazo. Muitas pacientes mantêm o uso de medicações por até cinco anos, enfrentando fadiga persistente e outros efeitos colaterais que diminuem a disposição para as ocupações habituais.
Laís Mutuberria Vieira pontua que as transformações corporais — como cicatrizes, mastectomias ou processos de reconstrução mamária com os quais a paciente ainda não se identifica — afetam diretamente a autoestima, o reconhecimento diante do espelho e a vida íntima. A redução da energia física repercute tanto na realização de tarefas cotidianas quanto nas relações afetivas e na sexualidade.
Essa realidade é descrita por Josiane Fernandes, de 48 anos, moradora de Volta Redonda (RJ). Diagnosticada com câncer na mama esquerda no início de 2025, após notar um nódulo, ela passou por cirurgia, quimioterapia e imunoterapia ao longo de um ano e três meses, período no qual também enfrentou um quadro depressivo.
Mesmo após a conclusão dos procedimentos mais invasivos, o retorno às consultas de rotina ainda desperta apreensão. Josiane afirma que a vida pós-tratamento exige reconstrução e que o cuidado em saúde precisa se estender para além da eliminação biológica da enfermidade.
Abordagem multidisciplinar e estigma
O câncer de mama permanece cercado por estigmas sociais e pelo temor imediato da morte, segundo Renata Reis Pinto, médica mastologista e radiologista com atuação no Instituto Nacional de Câncer (Inca). Em entrevista à Agência Brasil, a médica enfatiza a necessidade de estruturar um suporte multidisciplinar para acolher as diversas repercussões do diagnóstico na vida da paciente.
A mastologista ressalta que o plano de assistência deve considerar não apenas as respostas clínicas, mas também impasses práticos e sociais, como a conciliação com o trabalho e o cuidado com os filhos durante e após as intervenções médicas. A articulação entre serviços sociais, psico-oncologia e suporte médico é descrita como determinante para identificar sofrimentos intensos e garantir sustentação às mulheres ao longo de todas as etapas do processo.
Segundo estimativas do Inca, o câncer de mama é o tumor de maior incidência na população feminina brasileira, correspondendo a 30% dos registros. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, a previsão é de 78.610 novos diagnósticos no país, com um risco estimado de 71,57 ocorrências a cada 100 mil mulheres.
Créditos e informações originais: Matéria produzida a partir de reportagem publicada pela Agência Brasil, com declarações da psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira, da médica mastologista Renata Reis Pinto (Inca) e da paciente Josiane Fernandes.
Imagem gerada por inteligência artificial.
Outubro Rosa: tratamento termina, mas medo do câncer pode permanecer
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