O acesso contínuo aos smartphones transformou a dinâmica dos jogos de azar no Brasil. Se antes era necessário se deslocar até uma casa de jogos, hoje as plataformas funcionam ininterruptamente no bolso dos usuários. Essa proximidade tem antecipado a entrada de adolescentes nas apostas e desorganizado a rotina, os estudos e a saúde mental de jovens adultos pelo país.
Relatos de grupos de apoio mostram uma mudança no perfil de quem busca socorro. Na irmandade Jogadores Anônimos, já é frequente o acolhimento de adolescentes a partir dos 14 anos, levados por familiares e acompanhados por psiquiatras, além de jovens entre 15 e 25 anos que enfrentam perdas financeiras severas e ideação suicida.
É o caso de Gustavo Pereira, de 24 anos. Ele começou a apostar aos 18 e, em seis anos de compulsão, perdeu cerca de meio milhão de reais. Durante o período em que esteve dependente das plataformas, enfrentou depressão e síndrome do pânico. Afastado do vício há cerca de dois meses, ele passou a vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, para reconstruir sua vida diária e restabelecer seus vínculos pessoais e de trabalho.
Compromisso com o futuro e abandono de projetos
O impacto das apostas ultrapassa o valor monetário imediato e atinge diretamente a ocupação e os projetos de vida dos jovens. Dados da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) revelam que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de apostar para conseguir iniciar uma graduação em 2026.
Entre os que já estavam matriculados no ensino superior, 14% relataram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por falta de recursos destinados aos jogos. A pesquisa apontou ainda que 34% deixaram de investir em cursos livres e idiomas, enquanto 33% abandonaram academias ou práticas de atividades físicas para manter os gastos nas plataformas.
Segundo o diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os números evidenciam barreiras concretas para a formação acadêmica, embora o fenômeno exija respostas conjuntas entre educação, regulação e saúde pública, sem transferir a responsabilidade unicamente às instituições de ensino.
Precocidade e apelo comercial
A entrada precoce nas apostas é confirmada por levantamentos nacionais e internacionais. Estatísticas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar online até os 11 anos. No Brasil, levantamento divulgado pela Frente Parlamentar Mista de Educação com 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio identificou que 9,5% fizeram a primeira aposta com essa mesma idade, e quase metade dos alunos do 3º ano do ensino médio já apostou ao menos uma vez.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), pelo menos 24 milhões de brasileiros participaram de apostas em 2024, resultando no endividamento de praticamente metade desse público. O diretor do instituto, Tiago Braga, adverte que esses gastos comprometem despesas básicas da subsistência diária, como aluguel, alimentação, vestuário e educação.
A vulnerabilidade de crianças e jovens é potencializada tanto pelo desenvolvimento neurológico quanto pela propaganda. A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, pontua que as áreas cerebrais ligadas ao freio de impulsos e à avaliação de riscos terminam de amadurecer apenas na faixa dos 20 anos. Ao mesmo tempo, investigações do IBICT identificaram canais infantis e influenciadores digitais promovendo apostas em redes como YouTube, TikTok, Facebook e X, apresentando os jogos de forma disfarçada de recomendação pessoal.
Regulamentação e medidas de proteção
Como resposta à escalada dos jogos entre menores, entrou em vigor em março de 2026 o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), conhecido como Lei Felca, sancionado em setembro de 2025. O texto atualiza as exigências para redes sociais, jogos e plataformas virtuais.
A nova legislação proíbe o cadastro de menores de 18 anos em sites de aposta e exige mecanismos consistentes de verificação de idade, encerrando a validação por simples declaração do usuário. Além disso, menores de 16 anos passam a ter o acesso a redes sociais condicionado à supervisão parental vinculada, e formatos como as caixas de itens pagos aleatórios (loot boxes) foram vetados.
Especialistas em direito digital ressaltam que, além do controle técnico e da fiscalização que cabe ao Estado e às empresas, a proteção de adolescentes requer orientação contínua no ambiente familiar para o desenvolvimento da cidadania e da segurança no uso da internet.
Créditos da matéria original: Informações apuradas e divulgadas pela Agência Brasil / Radioagência Nacional, com colaboração de Luciene Cruz.
Imagem gerada por inteligência artificial.
Apostas em bets avançam entre jovens e ampliam risco de dependência
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