O avanço das apostas virtuais no Brasil tem provocado sofrimento psíquico severo e acendido um alerta direto entre profissionais de saúde mental. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a dependência em apostas, conhecida como ludopatia, está associada ao aumento de quadros depressivos, rupturas nos laços sociais e risco de ideação e tentativas de suicídio.
O debate ganhou força no Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, data em que trabalhadores da saúde defendem que o tema seja tratado abertamente nos serviços de cuidado. Quando o jogo deixa de ser uma prática ocasional e passa a ocupar o centro da rotina, os prejuízos deixam de ser apenas monetários e desestruturam o cotidiano: surgem conflitos na família, dificuldades de concentração e permanência no trabalho, alterações severas de sono, culpa e isolamento progressivo.
Sinais de alerta e ruptura no cotidiano
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, que atua no estudo e tratamento de transtornos do controle do impulso, explica que a maioria das pessoas que buscam apoio especializado já chega com humor deprimido e altos níveis de ansiedade provocados pelas perdas acumuladas.
Segundo a médica, a ideação suicida surge frequentemente associada à magnitude do endividamento e à sensação de falta de perspectiva. Mudanças bruscas de comportamento, falas ligadas à desesperança ou ao desejo de desaparecer, afastamento de pessoas próximas e aumento no consumo de bebidas alcoólicas são sinais que exigem atenção imediata de familiares e profissionais.
Para a psiquiatra Giovanna Quinet, que atua na Clínica Revitalis, no Rio de Janeiro, a facilidade de acesso transforma a dinâmica do vício. Diferente de modalidades tradicionais, as plataformas operam 24 horas por dia dentro do celular, normalizadas por campanhas publicitárias intensas e vínculos com eventos esportivos. A perda de controle costuma ser acompanhada de tentativas frustradas de recuperar o dinheiro perdido, o que gera um ciclo de ocultação dos fatos perante a família até o colapso financeiro e emocional.
O acolhimento na rede pública de saúde
A repercussão dessas crises chega diretamente aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, relata que a unidade recebe pessoas que tentaram o autoextermínio após o descontrole com as apostas virtuais.
Feres descreve essas situações como pedidos desesperados de socorro em momentos em que o indivíduo se vê sem saída, destacando que a resposta terapêutica passa pelo acolhimento multiprofissional e pela inclusão da família nas estratégias de cuidado. Ela ressalta ainda que o fenômeno ultrapassa uma fragilidade exclusivamente individual e demanda respostas também no campo coletivo.
Do ponto de vista neurológico, o neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Hospital Quali Ipanema (RJ), explica que a expectativa do ganho ativa o sistema de recompensa cerebral por meio da liberação intermitente de dopamina, o que interfere nos mecanismos de controle das decisões. A frustração contínua e o aprofundamento da depressão exigem intervenções coordenadas que envolvam medicina, suporte psicológico e a retomada gradativa de atividades rotineiras.
Setor regulado e canais de apoio
Procurado, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) declarou que reconhece a seriedade do debate sobre o jogo problemático e defendeu ações coordenadas entre órgãos públicos, reguladores e empresas. A entidade informou que, com a entrada em vigor do mercado federal regulado em janeiro de 2025, as plataformas autorizadas passaram a responder a exigências específicas de proteção ao consumidor e restrições na publicidade.
Diante de situações de sofrimento intenso ou ideação suicida, a recomendação dos serviços de saúde é não deixar a pessoa desacompanhada e buscar atendimento especializado:
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece suporte emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, com atendimento 24 horas. Em casos de emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192. O acolhimento contínuo em saúde mental também está disponível nas unidades dos Caps distribuídas pelo país.
Com informações da matéria original publicada pela Agência Brasil.
Imagem gerada por inteligência artificial.
Prevenção ao suicídio: profissionais de saúde destacam riscos com bets
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