Cuidar diariamente de uma pessoa idosa com demência envolve uma experiência marcada por sentimentos conflitantes, que transitam entre a dedicação afetiva e a exaustão física e emocional. Essa realidade foi documentada em uma pesquisa qualitativa realizada com 63 cuidadores familiares residentes em um grande centro urbano brasileiro.
O levantamento foi conduzido entre agosto de 2019 e fevereiro de 2020 por meio de entrevistas semiestruturadas e analisado a partir de análise temática reflexiva. O objetivo central dos pesquisadores foi compreender como os familiares percebem e desempenham as tarefas diárias de assistência em um contexto de forte cobrança social e escassez de serviços formais de suporte.
Entre a realização e o fardo cotidiano
A análise do material revelou um eixo global definido como a ambivalência de sentimentos. A partir dessa contradição, os relatos se dividiram em dois caminhos complementares sobre o que significa assumir a rotina de cuidados.
De um lado, o ato de cuidar foi associado a realizações, amor e reciprocidade familiar, resumido na percepção de que a tarefa representava uma etapa de vida significativa. Por outro lado, surgiram manifestações frequentes de sobrecarga, isolamento, estresse e a sensação de que todo o peso das responsabilidades recaiu sobre uma única pessoa, configurando o cuidado como dever e obrigação.
Os dados mostram que normas culturais, dinâmicas de convivência e a vulnerabilidade socioeconômica se cruzam na vida prática desses cuidadores. Embora muitos expressem afeto e propósito ao acompanhar o familiar, a rotina contínua de demandas práticas e a dependência do idoso frequentemente resultam em fadiga crônica e restrição da própria vida social.
Demandas por suporte e políticas públicas
Ao analisar o cenário brasileiro, os autores apontam que entender os significados atribuídos ao ato de cuidar ajuda a explicar as dificuldades enfrentadas na execução das atividades de cada dia. A dependência exclusiva do trabalho familiar não remunerado expõe a fragilidade das redes de assistência existentes.
Diante desse quadro, o estudo ressalta a necessidade de políticas públicas formuladas a partir dessa realidade cultural. Entre as ações apontadas para proteger a saúde dos cuidadores e a assistência às pessoas com demência estão a oferta de serviços de alívio temporário (cuidados de respiro), programas de capacitação e auxílio financeiro para as famílias.
Créditos: O estudo intitulado “Care between love and obligation: ambivalence in family caregiving for older people with dementia” é de autoria de Bárbara Pires De Andrade Lage Cabral, Tamires Rodrigues Pimentel Da Silva, Júlia De Souza Carvalho, Marcelo Brandão De Souza, Karla Cristina Giacomin, Paula Maria Machado Arantes e Marcella Guimarães Assis.
Imagem gerada por inteligência artificial.
Care between love and obligation: ambivalence in family caregiving for older people with dementia
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