O impacto da dermatite atópica ultrapassa a barreira biológica da pele. Por ser uma doença inflamatória e crônica marcada por coceira intensa, o quadro interfere diretamente no descanso, na autoestima, nas relações interpessoais e na realização de atividades rotineiras. Em fases agudas, ações simples como tomar banho, vestir determinadas roupas ou deitar na cama tornam-se dolorosas.
A estudante de medicina Clara Emery, de 23 anos, convive com a condição desde a infância. Ela relata que as feridas já a deixaram em carne viva, exigindo até antibióticos para conter infecções secundárias. Além das dobras comuns de joelhos, cotovelos e pescoço, as manifestações ocorrem ao redor dos olhos e nas mãos. Diversos fatores ambientais e emocionais funcionam como gatilhos, entre eles poeira, estresse, suor, pelos de animais e variações de temperatura.
O preconceito também é um obstáculo constante. A falta de informação pública faz com que lesões visíveis sejam associadas incorretamente a doenças contagiosas. Na escola, Clara enfrentou situações de discriminação e episódios de isolamento por receio do julgamento de terceiros. Hoje, ela controla crises graves com medicamentos imunobiológicos, cujo custo mensal supera R$ 10 mil — despesa coberta, no caso dela, por plano de saúde privado.
Prejuízos no desenvolvimento e no cotidiano
De acordo com a médica dermatologista Rosana Lazzarini, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), cerca de 40% das crianças com dermatite atópica continuam com a doença na fase adulta. As alterações no sono decorrentes da coceira frequente reduzem a concentração e o rendimento escolar ou no trabalho.
Na infância, as consequências alcançam o desenvolvimento psicossocial. O afastamento das brincadeiras, faltas consecutivas às aulas, restrições a eventos sociais e eventuais internações hospitalares fragmentam o cotidiano da criança. Para conscientizar a sociedade e combater o estigma, o dia 23 de setembro foi oficializado no Brasil como o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica, por meio da Lei 14.916/24.
O presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA), o médico dermatologista Roberto Takaoka, reforça que a busca das famílias por soluções rápidas esbarra no caráter crônico do problema. A doença exige acompanhamento contínuo, manejo de fatores emocionais e suporte informativo. A AADA mantém grupos de apoio e produz conteúdos educativos voltados a pacientes, familiares e profissionais de saúde.
Cuidados diários e acesso ao tratamento
A jornalista Rayane Lopes, de 34 anos, teve as primeiras manifestações aos 18 anos e associa as crises mais intensas a momentos de forte desgaste emocional. Com lesões frequentes no abdômen e entre os dedos das mãos, ela evita buchas de banho, hidrata o corpo continuamente e relata o constrangimento de lidar com o receio alheio de contágio.
Segundo a SBD, o diagnóstico da dermatite atópica é essencialmente clínico, feito a partir da avaliação das lesões, do histórico de recorrência e do controle da coceira. O tratamento tem como base a recomposição da barreira cutânea por meio da aplicação de hidratantes específicos duas a três vezes ao dia, além de banhos rápidos, mornos e com uso moderado de sabonete.
Nas situações mais graves, o controle pode envolver corticoides tópicos, fototerapia ou imunossupressores orais, como metotrexato e ciclosporina. Terapias imunobiológicas modernas, direcionadas a fases específicas da inflamação, ainda enfrentam a barreira do custo e não estão disponíveis na rede do Sistema Único de Saúde (SUS), restringindo-se ao sistema suplementar ou ao custeio particular.
Com informações da Agência Brasil.
Imagem gerada por inteligência artificial.
Dermatite atópica impacta pele, sono e autoestima: saiba como tratar
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